Entre Sonhos e Processos

Ontem mesmo tive um sonho bem estranho. Um dos mais realistas que já tive. E não era um desses com monstros aterrorizantes. Ele assustava exatamente por ser normal, sem grandes acontecimentos, sem reviravoltas, era igual a minha vida: N-O-R-M-A-L. Mas do nada, certa vez ainda dentro do sonho – agora eu sei por que estou acordado – me vi numa situação que nunca tinha acontecido:

Acordei em meu quarto com o som do despertador, olhei para o celular. Não havia novos emails ou mensagens. Fiquei deitado e pensando como seria bom que este fosse mais um dia comum e que aquela chata reunião no banco não durasse muito. Gostaria muito de chegar em casa cedo e tentar puxar conversa com minha vizinha, a Srta. Bürstner. Acho-a bastante interessante.

Esperei a Sra. Grubach trazer meu café da manhã. Ela é dona da pensão onde moro. Não sou rico, apesar de ser o gerente do banco onde trabalho, o salário de lá é uma miséria. O lugar é pequeno e simples, quarto, sala, cozinha e banheiro. Não tenho muitos móveis. Não reclamo por ser pequeno, moro sozinho e na verdade até gosto da tranquilidade daqui. Enquanto esperava fui até a caixa de correspondências verificar as cartas. Foi quando vi. A primeira carta na pilha era uma intimação para comparecer ao tribunal.

Inicialmente, achei que estava caindo em mais uma daquelas pegadinhas, afinal era meu aniversário e o pessoal do banco poderia está querendo me pregar uma peça. Entrei em casa, foi quando a Sra. Frau Grubach trouxe meu café da manhã, como fazia corriqueiramente, mas não estava chateado por ela está atrasada. Estava com fome, mas não chateado.

– Josef, há dois senhores querendo falar com você. Estão bem vestidos, parecem até seguranças. Pedi gentilmente que, lhe esperassem no hall da entrada. É melhor você se vestir bem. – disse a senhora, bem calma.

Então me lembrei da carta, ainda lacrada em cima da cama. Sentei-me perplexo. Não pode ser verdade, do que estaria eu a ser acusado? Sempre fui tão certinho, tão correto. Verifiquei novamente o meu email, para ver qual dos meus colegas já me teria respondido. Apenas o Kaminer, funcionário do banco, leu e informou que não sabia do que eu estava falando. Perguntou-me o porquê de eu está sendo acusado e no final desejou-me feliz aniversário.

Olhei o meu twitter e facebook. Nada. Nenhuma pista do que poderia está acontecendo. Tomei um gole de café e fui ver os senhores a minha espera.

– Bom dia.

– Sr. Josef K.?! O senhor está preso.

– Preso eu? Preso por quê?

– Isso não nos cabe informar. Estamos aqui somente para informá-lo que está preso.

Pediram para entrar no carro e me levaram para longe. Não pronunciaram uma única palavra. Aproveitei e li o jornal. Quando desci, tudo o que vi foi um bairro pobre, muitas crianças brincando nas ruas, mulheres lavando roupas, homens conversando nas esquinas. Bem do outro lado da rua havia um prédio, todo sujo e mal conservado, com uma fachada que para mim dizia “Aqui se faz, aqui se paga”, mas era o Tribunal Federal.

Entrei, e já havia uma sala lotada. Uma cadeira estava reservada para mim: a do réu. Achei engraçado e tirei uma foto do lugar para postar a pegadinha no instagram. Foi neste momento que percebi que todos que ali estavam tinham expressões sérias. Depois de sentado o juiz disse-me para ter respeito no tribunal. Foi aí que pedi licença e falei:

– De que estou eu a ser acusado? Tiram-me de casa, dizem que estou preso e agora isso? Toda a corte à espera do meu julgamento?

Fui interrompido por uma criança de corria do pai, absolutamente bêbado com o chinelo na mão. Levantei-me para defender o moleque. Toda a corte se revoltou contra mim, e o juiz, lá de cima me disse que não teria mais a chance de defender-me, pois agia por impulso. Completou ainda dizendo que seria eu um perigoso acusado. Condenou-me injustamente “acusado” somente porque quis interceder pelo garoto. Disse-me, então, que poderia ir trabalhar. E ir pra casa depois do trabalho normalmente. Achei estranho e perguntei qual era a diferença de ser um acusado para a vida que levava hoje. E ele ironicamente sorriu e disse que também não entendia. Que interrogatório estranho. Que justiça será essa, que primeiro pune e depois pergunta ou investiga?

Fiquei muito confuso. Fui trabalhar e não parava de pensar naquela manhã incomum que tinha acabado de viver. Fiz tudo muito rápido e procurei consultar um advogado para me ajudar com a causa. Estava levando comigo a carta que recebera hoje mais cedo, com um número de protocolo e o informativo de que o Estado estava com um processo contra mim. Queria entender o porquê das acusações, quem me denunciou e como isso era possível. Logo eu.

No dia seguinte, todos já estavam sabendo dos acontecimentos do dia anterior. Familiares que eu quase não lembrava queriam saber o porquê e como. Assim como eu. Fui ao escritório do advogado pela manhã, gostaria realmente de saber o motivo de está em um processo. No final, contratar um advogado não foi tão útil. Tive que fazer tudo sozinho. Tornei-me um detetive quase profissional. Investigava, pesquisava, perguntava. Sentia-me como em uma série policial. Porém estava perdido, não encontrava respostas. Mas continuei investigando.

E uma hora acabou se transformando em meses e nada de conseguir respostas. Um dia, quando todos já me consideravam culpado, eu andava sozinho de volta para casa, quando percebi que estava sendo seguido. Dois vultos me seguiam pela noite. Fiquei apavorado, mas não corri. O medo me consumia cada vez mais. Não tinha coragem de olhar para trás. Quando percebi, um já havia me agarrado pelo ombro e… Foi aí que mais uma vez acordei. Desta vez, acredito ter acordado:

Estava em minha cama. O despertador ainda estava tocando. Minha vida estava de volta ao N-O-R-M-A-L. Nem sinal de acusação em meu nome. Sem senhores a minha procura. Então verifiquei meu celular, se havia novas mensagens ou emails. Ninguém lembrou meu aniversário.

Esperei deitado a Sra. Grubach me trazer o café da manhã. Enquanto isso estava refletindo sobre o sonho… Levantei-me em um pulo e resolvi encarar a caixa de correspondências de novo. Não sabia se caia na gargalhada ou se resolvia parar a tremedeira que deu subitamente nas minhas pernas. Aquilo era real? Entre as demais estava ela, uma intimação para comparecer ao tribunal…

(Baseado em O Processo de Franz Kafka)

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