Liberdade para escolher a cor da embalagem

Estava indo ao trabalho e percebi que o lixo que coloquei na porta de casa semana passada ainda não tinha sido retirado. “Que absurdo” pensei. Olhei o celular e vi a hora “Porra! Já estou atrasado”. Corro para a parada de ônibus. Quarenta e cinco minutos depois vem o ônibus, superlotado. “Fazendo meu estágio para virar sardinha enlatada” penso comigo, quando finalmente consigo colocar os dois pés no chão.

Fico ao lado de um famoso DJ de ônibus, que não importa a hora ou o local, com o ônibus vazio ou lotado, sempre vai ter um “descompreendido” pela sociedade que comprou um daqueles radinhos no Alecrim e assim que descobriu que ele mais parece um trio elétrico faz questão de mostrar a todos o estilo de música que ele curte. Mas isso já é assunto para outro dia.

De volta para ida ao trabalho, desço e vou caminhando até a praia. Trabalho em um desses grandes hotéis que ficam em Ponta Negra. Faço o maior malabarismo para passar no calçadão destruído pela “força da natureza”. Em minha opinião, creio que foi pelo serviço público com a falta de manutenção. E cada vez mais hábil, estou quase me candidatando ao Cirque du Soleil.

A agitação é evidente, pessoas gritando pelos corredores música que ouviram ontem, rindo alto e se divertindo muito, acredito que nem chegaram a dormir. O hotel está lotado, estamos em um dos períodos mais esperados do ano para os potiguares, o carnaval fora de época. E essa atitude dos hóspedes é normal, o que incomoda são os funcionários. Aquela cara de ressaca, aquela preguiça pela noite mal dormida. Já percebi que o dia vai ser longo.

Uma das colaboradoras sofreu um acidente de carro. “E aí, ela está bem?” “Sim, ela está bem. Parece que a moto foi ultrapassá-la pela direta, enquanto ela fazia a curva e o carro acabou jogando a moto longe, o motoqueiro se machucou.” Ela chamou a Samu e não tinha carro para socorrer o rapaz.  Mas isso é bobagem, o que importa mesmo é o Carnatal, o assunto do momento, a distração da vez. Quem beijou quem, quem bebeu todas, isso sim é importante.

São quatro dias, hoje é o segundo. O mundo parou. Não se fala mais em desemprego, crianças sem escolas, hospitais sem médicos, falta de segurança, lixo acumulado causando doenças, ruas esburacadas e sem manutenção, quase sem transporte público, sem placas, desvio de dinheiro público, corrupção, e se for para citar todos, escrevo um romance de 400 folhas.

Indignado com essa situação, como dizem meus colegas da faculdade, com a grande política do pão e circo, em que os romanos utilizavam alguns jogos e distribuía comida para distrair o povo da miséria e dos déficits públicos, decido enviar um email à prefeitura e aos maiores jornais da Grande Natal para mostrar ao povo minhas impressões e relatando a minha total decepção com o governo. É hora do meu intervalo, reservo meia hora para almoçar, então tenho meia hora para escrever. Começo meu email, “Prezados Senhores, Venho informa-lhes que a rua onde moro está repleta de lixo, sei que estão sendo priorizados os serviços mais importantes, mas como nem a saúde está funcionando com decência, peço-lhes esclarecimentos”. Não. Apago todo o email e começo de novo.

“Prezados Senhores, Estou escrevendo para informa-lhe que a cidade de Natal encontra-se um pouco abandonada, para não dizer destruída. Estamos sem verbas para a educação, saúde, segurança, que são os serviços básicos que o governo deve oferecer aos cidadãos com decência. Aproveitando a oportunidade, gostaria de comentar que está sendo um grande desperdício a utilização do dinheiro público para a construção da Arena das Dunas, enquanto vi hoje três crianças, sujas, mal vestidas e bem mal alimentadas pedindo, pedindo não, implorando por dinheiro no semáforo às 7h da manhã. Aproveitando também, para informar que o carnatal, apesar de obter um grande retorno quando pensamos em lucro, não recompensa os gastos. E isso não justifica o devido esquecimento de investimentos em áreas que realmente necessitam desse dinheiro. Estou indignado com”, meu celular toca, é o despertador, informando que meu horário acabou. “Droga, salvo bem rápido o texto e vou almoçar, amanhã eu termino”.

Trouxe um livro na mochila para ler no caminho de volta, são 1h20 o percurso do trabalho para casa. À noite o ônibus vem um pouco mais leve. Creio que as pessoas, assim como eu estão voltando para casa, cansadas de um longo dia de trabalho. Não consigo ler, já devia ter aprendido. O ônibus balança muito e a iluminação é precária. Em pouco tempo o ônibus lota muito e isso é estranho. Lembrei, hoje tem carnatal, observo todo aquela animação e as muitas pessoas vestindo abadás. Me sinto estranho, um ser de outro mundo. Por que eu não entendo eles?

“O que eu vou fazer assim que receber meu décimo terceiro salário? Com certeza, eu não compraria um abadá, eu pagaria algumas das minha contas e acho que é o que vou fazer” Penso comigo. Uma senhora, com seus 40 anos, senta ao meu lado, e só para variar, conversa alto com uma amiga. “Mentira, tu parcelou em 10 vezes?!” “Foi! Era o único jeito, não vou perder de ver o Nana passar. Deixo todas as contas atrasadas, mas não troco o corredor da folia por nada”.

Cheguei em casa e entrei em coma, acordei já era manhã. “Estava realmente cansado”.  Indo ao trabalho, percebi que os lixos em frente as outras casas aumentaram.  Consigo pegar o ônibus na hora e chego ao hotel. O alvoroço ainda é irritante. Porque as pessoas não veem isso como eu vejo? Hoje é o terceiro dia. Vou terminar meu email: “… Estou indignado como a situação passa despercebida aos olhares da sociedade, principalmente para os mais humildes. Eles realmente acreditam que isso é para o bem da cidade e para o crescimento de todos. Ao votar, depositei a minha confiança em alguém que acreditava que iria melhorar o lugar onde moro, mantê-lo funcionando, então peço gentilmente que faça alguma coisa além de projetos e leis que não mudam o nosso dia-a-dia, queremos ver mudanças. “ Acho que tá bom. Releio e assino. E agora para quem eu mando?

Um amigo chega me contando as novidades da noite anterior e as expectativas para hoje. E eu acabo esquecendo de enviar. O email é salvo automaticamente em rascunhos. E vou para casa, com a promessa de que amanhã eu mando. Hoje, um ano depois, ainda tenho esse mesmo email salvo em meus rascunhos e os mesmos problemas permanecem, “ainda bem que não vou precisar reescrever” e no final do dia eu envio, “eu juro” prometo a mim mesmo. E ali jaz a minha esperança de que um email vai mudar a forma de governar e o rumo de toda uma cidade bonita por natureza.

(Crônica sobre uma matéria do jornal impresso da Tribuna do Norte sobre o início do carnatal, carnaval fora de época da cidade de Natal. Texto disponível em 05 de dezembro de 2012)

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