Não se preocupe, estou aqui

Treze. Ela falava ao telefone. Era o sorriso mais lindo que já havia visto em toda minha vida. Não existia nada igual. Nem em filme, nas novela ou em Hollywood. Ela tinha cabelos pretos, sorriso meigo, olhos castanhos. Era bem comum às outras pessoas. Para mim, era perfeita.

Estávamos no escritório do Dr Phill. Eu não estava muito doente. Tive um pouco de febre a noite, minha mãe ficou preocupada. Pois é, ainda moro com meus pais. Já ia esquecendo de me apresentar, sou Raphael, tenho 13 anos, capitão do time basquete da escola. No tempo livre, jogo vídeo game, leio alguns livros de ficção e o mais frequente, saio com amigos para ir no fliperama da esquina.

Criei coragem, respirei fundo e fui falar com ela. Mentira. Sentei ao seu lado e peguei uma revista bem velha. Ela nem me notou. Olhei para ela e disse “que dia lindo lá fora”. A janela na nossa frente mostrava um céu cinzento e a chuva caia em abundância. Ela olhou através da janela e depois fixou o olhar em mim. Em um minuto estava nu, mesmo vestido. Me arrependi muito daquela frase, mas não tinha como voltar a atrás.

Ela continuava com o olhar fixo em mim. Mexeu aquela linda boca e disse “eu prefiro quando tem sol”. Sua voz estava um pouco rouca. Imagino que estava gripada ou com a garganta inflamada. Mas isso não a deixou menos linda. Ela foi chamada pela recepcionista. Quinze minutos depois saiu da sala como se eu nem existisse.

“Deveria ter perguntado o nome dela” disse ao Pedro, meu melhor amigo. Estávamos na casa dele, íamos sair com a galera mais tarde. Fiquei lá, horas e horas, falando sobre aquela menina que eu nunca tinha visto antes e mesmo assim havia tentado uma conversa, a garota dos meus sonhos. Pedro pediu mais detalhes do encontro e riu muito da frase besta que havia dito.

Fui a casa do Pedro jogar vídeo game. A Dona Clarice, mãe dele, sempre me recebia com muita alegria e cozinhava divinamente. Aqui em casa, é sempre triste durante o dia, estou sempre sozinho. Principalmente durante a semana, quando minha mãe e meu pai estão trabalhando. A noite sempre tem aqueles programas de família. Gosto de vê-los juntos. Eles se amam, sei disso. Um dia, quero olhar para minha esposa do jeito que meu pai olha para minha mãe. Eles são casados a quinze anos e nunca os vi brigar.

Pedro comentou que que tinha uma nova vizinha. Haviam chegado ontem no apartamento 804. Disse que a filha do casal era até bonitinha, mas estudava em escola integral e passava grande parte do dia fora. Esquecemos esse assunto jogando vídeo game a tarde inteira. Já estava perto de escurecer e decidimos ir lá na área de lazer do prédio.

Parei. Na verdade, congelei. Não conseguia andar. Não acreditava. Ela estava lá. Quais as chances? Ela lia. E lá estava aquele sorisso lindo que me deixava sem ação.

Pedro logo sacou. Me encorajou a ir falar com ela. Eu disse “que bobagem, ela vai me dá um fora”. Depois de muito ele insistir, eu fui. “Como está o tempo para você agora?”. Ela fechou o livro e me olhou. De novo, me senti nu, de novo parece que minhas roupas tão fugindo de mim. Era como se ela soubesse tudo sobre mim. Pensamentos. Atitudes. Vida. Tudo. “Assim está agradável, obrigada”. Ela responde quase em um sussurro e um meio sorisso.

Decidido, junto toda a minha coragem e sento ao seu lado. Começo a falar. Dessa vez, não a deixei ir embora sem me dizer seu nome, telefone, facebook, twitter, tudo. Não queria perdê-la de novo. Ela também tinha 13 anos e tinha acabado de se mudar, como o Pedro já havia comentado. Adorava ler ao ar livre e conversar com as amigas, que agora estavam longe, mas isso não a deixava triste.

Passei um tempo em silêncio. Eu a admirava. Ela tem um brilho indecifrável nos olhos, não consigo entendê-los. Não consigo parar de olhá-los.

Quinze. Já eramos amigos a muito tempo. Numa bela tarde de sábado ela me beijou. Fiquei sem chão. Sem ar. Meu coração bateu bem forte. Depois parou. Depois acelerou novamente. Tudo o que sentia era o calor do seu corpo no meu. Sua boca estava enlouquecendo. No terceiro beijo a levantei em um abraço e perguntei “quer namorar comigo?”. Ela sorriu e me beijou.

Vinte e dois. Já estávamos nos formando. Trabalhávamos meio expediente e juntávamos dinheiro para podermos morar juntos. Estudamos bastante. Trabalhamos bastante. Quase não nos víamos mais. Fiz concurso e passei. Todo aquele esforço inicial, estava finalmente valendo a pena. Fomos morar juntos. Ela começou a trabalhar na empresa de publicidade do pai. Estávamos sempre o maior tempo que podíamos juntos.

Era seu aniversário. Já tinha preparado o presente.

Era um domingo e não íamos trabalhar (para a minha sorte). Levei seu café da manhã e um buquê de rosas vermelhas. Enquanto ela comia,  tirei uma caixinha do bolso e lhe entreguei. Ela a olhou curiosa. Quando abriu, ficou surpresa. Na pequena caixa havia um papel enrolado numa fita rosa. Nesse papel tinha a seguinte frase “quer casar comigo?”. Ela levantou os olhos e eu já estava ajoelhado no chão, ao lado dela na cama, com o anel mão.

Vinte e seis. Recebi uma mensagem dela. “Não estou me sentindo muito bem. Vou para casa descansar. Não se preocupe. Te encontro às cinco.” Fui louco para casa. “Meu amor, você tá bem?”. “Sim, só estou um pouco enjoada”. Ficamos a manhã toda juntinhos na cama. Levantei para fazer algo para comer. Mas ela não quis. Assim que cheguei com a comida no quarto ela voou para o banheiro e começou a vomitar. “Amor, você está grávida?”. Ela me olhou surpresa, parecia que essa ideia nem tinha passado por sua cabeça.

Vinte e nove. Nossa filha estava fazendo 3 anos. Estava empolgado. Queria que fosse perfeito. Fomos a casa do lago. Tinha organizado bolo, doces e muitos presentes para Melissa. Sei que alguns pais gostam de fazer festa de crianças para crianças. Eu sou um pouco mais egoísta. Eu queria as duas mulheres mais lindas do mundo só para mim. Organizei todo o final de semana e eramos só nós. Brincando, rindo, passeando, correndo, se escondendo, pintando, lendo.

Trinta e cinco. Minha mão tremeu um pouco hoje.

Quarenta e um. Descobrir que tenho um tumor no cérebro. Melissa já está se tornando uma linda mulher. E a mulher com quem casei, a que possui o sorisso mais lindo ao mundo ainda dorme ao meu lado.

Quarenta e seis. Estava internado e mesmo sabendo que esse dia chegaria, tinha medo de morrer. “Meu amor, não tenha medo, está tudo bem. Estou aqui, e não vou embora”. Naquela noite, eu não abri mais os olhos.

Vi o grande amor da minha vida dormia ao lado do corpo que já não mais me pertencia. Tinha um semblante angelical. As máquinas começaram a fazer barulho. Começou uma grande movimentação no quarto. Não saí do lado dela. Ela chorava baixinho num canto. Como se ainda tivesse esperança.

No meu enterro ela já estava mais calma. Igualmente triste. Melissa a acompanhava. Como era forte minha menininha. Alguém veio ao meu encontro aquele dia. Não a conhecia, mais era calma, cheia de luz. Ela me disse que entendia que eu queria ficar, mas que eu precisava ir, ela já tinha adiado demais a minha volta. Olhei mais uma vez aquela linda mulher encolhida na cama, chorando baixinho. Mas Sarah disse que, quando eu recuperasse as feridas da minha alma poderia voltar para visitar minha esposa.

Queria, mas sabia que não poderia ficar ali para sempre. Deitei ao seu lado, meu primeiro e grande amor. A abracei, como nunca tinha feito antes. Então, com lagrimas nos olhos, sussurrei em seu ouvido “Meu amor, não tenha medo, está tudo bem. Não precisa chorar, estou aqui. Sei que você ficará bem e voltarei para te visitar assim que puder. Eu te amo, Ana. Adeus, até sempre, saudades”.

“Adeus, até sempre, saudade” foi dito por José Sarney quando Tancredo Neves morreu, em 1985.

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