Sem medo de tentar

Moro em Duocity, uma cidadezinha um pouco diferente. Imagine um muro imaginário, um muro de força, como naqueles filmes infantis onde os lugares legais eram protegidos com encantamento. Esse muro divide nossa cidade entre dois lados com nome de AC e DC, e eu realmente nunca entendi o porquê dessas siglas.

Eu vivo no lado AC. Todas as pessoas são verdadeiramente boas e vivemos em completa harmonia. O tempo é sempre agradável e tranquilo, mesmo quando chove é muito bom ver a água escorrer pela janela. Nunca ouvi alguma história sobre brigas que aconteceram, nem ao menos uma discussão. Todos repeitam a opinião dos outros. A vida é boa.

Não sei descrever muito bem como são as coisas no bairro DC. O que dá para ver pelo muro é muita movimentação, eles não são nada calmos. Às vezes, eu chego bem perto do muro, quando vou entregar algumas cartas por lá, e vejo com muita dificuldade uma multidão de pessoas nas ruas, tudo muito cinza. Monocromático. Dizem que quem tenta passar pelo muro é desintegrado. Nunca vi alguém tentar. E também nunca ouvi história de quem tenha visto.

Meu nome é Raphael e tenho 19 anos, sou o carteiro. Vou de um lado ao outro da cidade. Vou em todas as casas. Escuto todas as história de transformações. Ah, já ia esquecendo, aqui do lado AC, quem faz uma coisa realmente muito boa, uma solidariedade, algo realmente altruísta, uma coisa que quase ninguém faria ganha asas.

Num dia, no meio do meu percurso de fim de tarde, na Rua dos Corações. Por curiosidade, parei bem em frente ao muro e fiquei a observar como as pessoas do outro lado viviam. Foi quando a vi. Andava sozinha na rua, e acho que nem chegou a me ver. Entrou em uma casinha bem simples e desapareceu. Parece ser da mesma idade que a minha, usava roupa velhas e tinha uma expressão muito triste. Ela é realmente linda.

Não consegui parar de pensar nela. Mesmo sabendo que é proibido falar sobre isso, fui ver o Sr. Geraldo. Ele é bem velhinho e sempre me dá conselhos. Desde roupa até como agir perto das garotas. O Sr. Geraldo disse que seria impossível alguém passar pelo muro, de um lado pro outro e continuar vivo. “O corpo do cidadão é desintegrado em questão de segundos.” “E o contrário?” pergunto ansioso. “Por que alguém do AC iria quer ir ao DC?” ele responde sem entender o porquê da pergunta.

No dia seguinte, respirei fundo e passei pelo muro. Se aquilo era a sensação de se desintegrar, não parecia ser nada mal, só fiquei com um zumbido no ouvido, que em questão de segundos já tinha passado. Olhei pros meus pés, minhas mãos, minhas roupas e dentro de minhas calças. Tudo estava com antes. Nada parecia ter acontecido. Mas na verdade, algo tinha acontecido sim, eu estava do outro lado. E lá estava ela, a menina mais linda de todos os tempos que eu já tinha visto desde sempre.

Ela estava sozinha, encostada no canto da parede chorando. Não sabia o que tinha acontecido, mas queria abraçá-la e dizer que estava tudo bem e que iria melhorar. Então, com calma foi até ela, me abaixei e perguntei “Por que você está chorando?”. O susto foi bem grande, afinal eu devia ser bem estranho pra ela. Aquela coisa vestida de branco e com um monte de cartas na mão. Além do mais, as pessoas do bairro DC não perguntam esse tipo de coisa, daí o motivo do susto, foi o que ela me explicou mais tarde.

Ela se recompôs e perguntou de onde eu vim. Olhei para o muro e não o vi, existia apenas um precipício. Então, sem o muro como prova, tentei explicar toda a minha ousadia de atravessar o muro que ela nunca viu. Justifiquei minha atitude com a única coisa que me veio a mente e também a mais pura verdade. “Eu não sabia o que aconteceria comigo desse lado, mas não podia ver você chorando e não fazer algo, então resolvi vir aqui te dar um abraço”. Ela começou a chorar de novo. Não podia tocá-la, tinha medo que fugisse ou que aquilo fosse um sonho e eu acordasse. Fiquei ali, sentado ao seu lado até que ela falasse alguma coisa.

“Precisamos te esconder por enquanto, o Cesar não pode te ver aqui comigo”. Me pegou pela mão – quase perdi o fôlego – e fomos para sua casa. A primeira coisa que fizemos foi nos livrar daquela minha roupa espalhafatosamente branca. ela foi no quarto e me deu algumas roupas de seu irmão e eu as vesti. “Deu certo!” comentei ao voltar para sala e quando ela me viu, começou a chorar de novo. Não sabia o que fazer, simplesmente a abracei. Ela soluçava em meu peito.

Seu nome era Ritah e trabalhava com o irmão em uma lanchonete da esquina. Estava bem triste pois não gostava de onde vivia, como morava e suas regras estúpidas. Disse também, que já estava cansada de viver aquilo que não acreditava. Ritah me contou muita coisa sobre o lado DC, mas uma coisa era certa, ali era bem diferente do lado AC. E eles nem chamavam de DC.

O lugar onde eu estava chamava-se Quarterão 61. Era quente e abafado durante o dia, enquanto a noite era bem frio. As casas eram deformadas, mal feitas e totalmente sem conforto. Pelo que eu entendi, eles também tinham um negócio chamado religião, política e o pior de todos, um tal esporte chamado futebol, que era motivo de brigas e discussões em toda cidade. As pessoas ali tinham o semblante triste, com a aparência sempre cansada, roupas velhas e sempre com cara de medo. Essa foi uma palavra que eu tive que aprender, medo. Nós não temos isso no lado AC.

Haviam alguns homens que “mandavam” no Quarteirão 61. Não como no bairro AC, que temos os anciões que decidem em prol de todos. Lá eles queriam apenas o seu próprio bem estar. Cesar, pelo que Ritah explicou, era apaixonado por ela, que sempre disse não. Então ele a ameaçou “Se eu não te terei, ninguém mais terá”, ele também era o tenente do lado DC, opa!, do Quarteirão 61. Ele mesmo fazia ronda pela cidade para ver se estava tudo em ordem. E a ordem era: todos quase passando fome, mal dormidos e mal vestidos.

O irmão de Ritah, John, foi levado de casa na noite passada, por ser líder da resistência à opressão. O prédio onde ele estava ficava no coração do Quarterão 61 e quem entrava, nunca mais era visto. A resistência lutava apenas por mais igualdade nas condições de vida das as pessoas, que todos pudessem ter a mesa o que comer, ter o que vestir e onde dormir com um pingo de dignidade.

Como não sabia como voltar ao lado AC, Ritah ajudou na minha adaptação. E quanto mais eu ficava ali, mais tinha pena daquelas pessoas. Comecei a trabalhar como zelador na lanchonete e dormia num quartinho que tinha lá mesmo. Não podia ficar muito próximo a Ritah, pois o tenente não podia nos ver juntos. Conversamos muito na hora do almoço e ela adorava quando eu contava como era a vida lá no lado AC e principalmente as histórias de transformações.

“Ninguém vai sentir sua falta?” Ritah me pegou distraído E comecei a pensar sobre o assunto. Não, vão achar que fui viajar e daqui a pouco estou de volta. Nessa noite eu não dormi. Não consegui parar de pensar em como voltar para casa. Pela manhã fui até o precipício e não encontrei porta ou o campo de força pelo qual passei. Tentei te tudo. Até peguei uma vara bem grande e cutuquei o nada.

O tempo foi passando e foi ficando cada vez mais difícil de esconder que estava perdidamente apaixonado por Ritah. Ela por outro lado, até agora não demostrava qualquer interesse, a não ser aquele dia: Estávamos limpando a lanchonete e sem querer ela escorregou e caiu em cima de mim. Não sabia o que fazer e ela estava tão perto. Podia sentir seu cheiro. Se me esforçasse um pouco mais, ouviria até seu coração bater. Então, por puro instinto de apaixonado, a beijei. Ela retribuiu. Foi a primeira vez que coraçãozinho deu pulos de alegria e se encheu de esperança.

Um ano depois, já conhecia bastante gente no Quarterão 61. E a forma de me relacionar com essas pessoas foi mudando aos poucos seus comportamentos, eles percebiam que a felicidade estava relacionada ao simples respirar, ao viver. Além disso, eles possuíam o que os homens com dinheiro não tinham: amigos. Eu não tinha muito a oferecer, então oferecia aquilo que tinha carinho e atenção. Com o convívio, fui ficando cada vez mais conformado em continuar morando do lado DC, já que não sabia como voltar para casa. Sem contar que era ali que Ritah vivia, e eu não queria viver um único dia sem ver ou conversar com ela.

Já ia completar dois anos, chamei Ritah para comer lá no quartinho, enquanto assistíamos a um novo filme (visivelmente censurado, mas eu não me importava). Ela estava praticamente se despedindo e eu resolvi falar “Ritah, eu te amo, vamos fugir?”. Ela congelou. Abriu aqueles grandes olhos verdes e disse “Você está louco, Cesar nos caça e mata você”. Fez uma pausa e antes que eu pudesse dizer que não tinha medo, ela completou “eu te amo desde que te vi pela primeira vez. Meu coração não cabia dentro do peito naquele dia. E aquele abraço, que por um momento me fez esquecer a falta que fazia meu irmão. Sem comentar nosso primeiro beijo, com o qual eu sonho todas as noites.” E dai ela não parou mais. “Meu sonho é que um dia você descubra como voltar para casa e me levar jun …”. Não deixei que ela continuasse. Beijei Ritah com todo o amor que sentia reprimido em meu coração.

Nesse dia ela dormiu no meu quarto. Pela manhã, deitada ainda em meu peito ela disse “temos que manter nosso relacionamento em segredo, por favor, não quero que o Cesar descubra. Não suportaria não ter você aqui. E só a ideia de nunca mais te ver já me dá vontade de chorar. Eu acho que sem você aqui eu não aguentarei.” “Tudo bem!”, por hora eu concordei. Mas pensei “terei que enfrentá-lo algum dia”, mas não queria deixar Ritah triste ou preocupada. Ali está estava tão bom. Não toquei mais nesse assunto.

Manter um segredo tão grade assim é muito difícil, principalmente quando você sabe que é correspondido. Então, quando mais tempo ai passando, mais eu e Ritah nos descuidávamos. Passávamos muito tempo juntos, andávamos sempre ao lado do outro e ela frequentemente dormia no quartinho da lanchonete comigo.

Alguém nos viu: fui levá-la em casa outro dia e fomos à beira do abismo de onde eu havia saído. Conversar um pouco sobre nós e sonhar. Brincávamos que ali, naquele horizonte a nossa frente, existia um lugar onde poderíamos ficar juntos e assumir a todos o quanto nos amávamos. Em meio a esse sonho, senti uma louca vontade de beija-la e assim eu fiz. Ela assustada me afastou com as mãos e olhou em volta para ver se havia alguém. Nós não vimos, mas naquela hora alguém nos viu.

Pedrinho, filho da vizinha foi escondido avisar a Ritah, quase três horas da manhã, que o tenente Cesar estava indo me buscar. Ritah ficou desesperada. Saiu no frio, praticamente sem roupa e bateu lá na lanchonete. Ainda meio atordoado de sono fui levado por Ritah até o nosso abismo dos sonhos. Até ali não sabia qual era a sua intenção.

“Raphael meu amor, já sofri muito nesse mundo. Depois que meu irmão foi levado, eu fiquei sem chão e achei que não fosse aguentar. Você apareceu, como um anjo caído do céu e trouxe a esperança de que um dia eu seria feliz. Mas não seremos felizes aqui”. Nessa última frase, ela ficou séria. Ouvimos o motor de um carro e homens conversando. “Acredito que você veio de outro mundo e prefiro morrer tentando te levar de volta a ficar aqui e ver você sendo levado de mim.” Olhei para trás, vi o tenente Cesar no inicio da rua, quatro homens o acompanhavam.

“Ritah, você quer tentar ir ao lado AC? Mesmo tendo quase certeza que seremos desintegrados pelo campo de força ou morreremos no fim desse abismo?” Ela olhava fixamente para mim com muita confiança no que dizia. Eu olhei para aquela imensidão. Estava tudo escuro, mas não tive medo. Não havia tempo para dúvidas. A abracei e dei-lhe o que seria nosso último beijo. Sem terminá-lo, joguei nossos corpos em direção a escuridão. Em meio à queda, apesar de tudo, estávamos tranquilos. Nosso abraço era de carinho.

Estava com os olhos fechados e pensei “queria ter asas agora”. E assim se fez. Quando abri os olhos estava voando baixo, menos de um metro do chão, na rua em que estava quando vi Ritah pela primeira vez. Estava de volta. Ritah chorava em meus braços quase sem acreditar no que via. Nada havia mudado. Parecia até que eu nunca havia saído. Se não fosse por Ritah ali comigo, diria que tinha sido um sonho. O mais real que eu tive.

Voltando a realidade e feliz por ter asas, levei o grande amor da minha vida para casa e cuidei dela. Assegurei-me que Ritah pudesse fazer tudo o que gostava, sonhava e queria. Casamos naquele verão e tivemos 04 filhas, Carol agora com 17, Melissa com 14, Laura com 9 e a caçula com 4 aninhos, Vitória. Hoje sou o homem mais feliz do universo.

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