Sem saída

“Passei muito tempo defendendo ideias erradas. Hoje tenho minhas próprias conclusões. A pergunta era simples, mas a resposta ainda sem definições.” pensou Camila.

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Ricardo se preparava para mais um roubo à joalheria no centro. Tinha encontrado no crime o que a vida não lhe deu. Arrumou um barraco, até grande. Tinha aparelho de som, tv de plasma e um iPhone. Comia todos os dias.

Havia sido deixado pelos pais perto de uma igreja abandonada no coração da favela. Viveu nas ruas até os 5 anos com Jurema, que apesar de ser viciada em drogas, vez ou outra, lhe dava algo para comer. Uma manhã, Jurema não acordou. Depois disso, o pequeno Ricardo foi recolhido por um orfanato. Foi devolvido muitas vezes. Foi forçado a trabalhar pesado para famílias que o adotavam. Fugia das casas, por não aguentar mais apanhar. Começava a ficar velho. Aos 12 anos, ninguém mais iria adotá-lo. E o governo não iria mais “cuidar” dele.

Evangeline, diretora do orfanato, lhe conseguiu um emprego na fabrica de sapato. Conseguiu também colocá-lo em uma casa, onde vários outros rapazes viviam na mesma situação. Ricardo não ficou lá muito tempo. Dormia mal, comia mal, vivia mal. Foi quando conheceu Romeu, que lhe disse que a vida seria mais fácil se ele fosse trabalhar com o Nivaldo e que com uma arma na mão, ninguém iria confrontá-lo.

Ricardo começou com pequenos roubos e vendendo pó na esquina do Ratão. Logo ficou conhecido. Ganhou confiança e lhe foi atribuído as grandes ações. Como recompensa dos roubos e da venda de drogas, Ricardo ganhava mulher e dinheiro. Aos 15 anos, não pensava em querer coisa melhor. Não ficava preso muito tempo. Logo voltava para o seu barraco.

Ao ir ao Centro da cidade com Romeu, percebeu que as lojas de joias tinham seguranças reforçados. Decidiram então, voltar outro dia. No caminho para casa, conheceu Eleonora. Uma senhora gentil que tinha olhos amáveis. Ofereceu-lhe emprego e um quartinho no fundo de sua casa para ele morar. Matriculou Ricardo na escola e o incentivou a fazer coisas boas.

Começou a namorar e logo o casal teve uma filhinha linda. Mas Ricardo ainda não sabia o que era o amor. Ricardo não sabia amar. Tinha muitas crises e ficava violento. Um dia, sozinho no quarto dos funda da senhora Eleonora, tirou a própria vida. Deixou apenas um bilhete dizendo que não entendia porque havia sido abandonado pelos pais e porque tinha sofrido tanto, no final do bilhete tinha escrito “[…] o mundo ficará melhor sem mim. Espero que me perdoem por não estar mais presente. Com carinho, Ricardo.”

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Camila acordou assustada. Chorava baixinho para não acordar os pais. Abraçou a própria barriga e decidiu não ter a criança. Tinha apenas 16 anos e vivia em um único cômodo com os pais e quatro irmãos. Mesmo trabalhando bastante catando lixo, no fim do dia, muitas vezes, não tinham o que comer.

Havia engravidado do seu namoradinho. Ele, assim que descobriu que ela estava grávida, a ameaçou dizendo que se ela contasse para alguém que era dele, ele a mataria e toda a sua família. Camila não duvidava, ele era capaz.

Decidiu encarar os pais e dizer-lhes que queria fazer um abordo. E confessou o quanto os amava por não tê-la abandonado. Sua mãe chorava. Seu pai estava inconformado. Sua mãe lhe sorriu, quase sem força em meio às lágrimas.
– Filha, nós daremos um jeito. Sempre damos.

Camila por fim disse:
– Mãe, um dia quero ser mãe e oferecer a meu filho todo amor e carinho que a senhora e papai me deram. Não tenho palavras no mundo para agradecê-los. Mas quero que meu filho tenha todas as oportunidades. Quero poder educá-lo. Quero que ele tenha pais que o amam. Quero que ele cresça em um mundo melhor. E isso eu não poderei oferecer a esse pequenino aqui.

Camila abraçou novamente a barriga.
– Ouvi na televisão que a alma só vem para corpo na hora do nascimento e que, enquanto a criança não nasce, fica nos observando lá de cima. Sei que vai me perdoar por não tê-lo agora.

Camila olhou para cima com lágrimas nos olhos e pediu perdão. Os pais não a entenderam, mas decidiram apoiar a filha. O dia seguinte iria ser mais um dia comum. Talvez para as outras pessoas. Para Camila iria ser inesquecível. O que a confortava era saber que Ricardo, o seu nome até tinha sido escolhido, iria nascer daqui a alguns anos e que iria ter a vida que sua mãe sonhava. Pais que o amam, comida na mesa e toda uma vida de alegrias e sucesso.

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